terça-feira, 23 de julho de 2019

Oficina inclusiva para crianças expande percepção da literatura na Biblioteca Nacional

Dinorá Couto Cançado, 66 anos, professora aposentada do Distrito Federal há 24, tem uma prótese no quadril – o que torna a ação de se sentar no chão um exercício de coragem-, acaba de vencer batalha contra um câncer, e no domingo (28), “com muita alegria”, vai coordenar a oficina “Corrida de Compreensão Leitora” no Espaço Infantil da Biblioteca Nacional de Brasília. A atividade, com duração de duas horas acontece a partir das 10h é destinada “a todos”, diz ela, mas tem foco em crianças de 7 a 11 anos e seus familiares.

Oficina inclusiva acontece no próximo domingo na Biblioteca Nacional

Conversar com Dinorá exige fôlego de maratonista, pois sua fluência tem a pretensão de não deixar escapar nada de importante, o que envolve quase tudo que diz. Corrida de Compreensão Leitora? Pois é. Significa que desafia as crianças, numa folheada rápida que fazem nos livros, a responder sobre o assunto de que tratam as obras e discorrer sobre o tema. “Descobri esse método numa feira de livros em que mal conseguia andar. Não sei abordar as pessoas para comprar meus livros, mas sei acionar a curiosidade das crianças”, revela.

É essa capacidade que ela vai colocar de novo em prática na atividade do domingo, quando coordenará performances teatrais, adivinhações e brincadeiras relacionadas a contar histórias. Isso com a ambição de produzir inclusão ao reunir pessoas “normais” com as que têm diferentes graus de dificuldade de visão. “Inclusão acontece quando a gente junta pessoas com diferentes capacidades e descobre que todo mundo é igual”, ensina.

No Espaço Infantil, dois títulos da autora – “Lango e Tixa: Papo que espicha” e “E eu sou isto, vovó?” – ganharão no domingo encenações por portadores de deficiência visual. Noeme Rocha, 50, fará papéis na primeira, enquanto Adma Figueiredo, 40, se desdobrará para reproduzir o diálogo entre avó e neta sobre o tema cidadania, assunto que está presente na história de Dinorá. Ela é membro-fundadora da Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga, ligada à Secretaria de Educação, que há 24 anos assiste a deficientes visuais. “A Biblioteca é minha vida”, confessa sobre o local em que ainda atua como voluntária.

O trajeto da professora passa também pela criação da Academia Inclusiva de Autores Brasilienses, instituição itinerante que surgiu em 2017 sob pressão de autores portugueses numa visita de Dinorá à cidade do Porto, Portugal. Na volta, ela desembolsou os custos para criação do estatuto, que hoje conta com mais de 500 membros entre escritores videntes e deficientes visuais unidos pela literatura. Na atividade de domingo, os participantes poderão manusear livros em Braille, com tipos maiores e ilustrações em alto relevo.

“Vamos acabar no Guiness Book porque somos uma academia itinerante e viajamos o mundo atrás de membros comprometidos com a proposta”, explica ela, de malas prontas para os Estados Unidos, onde em Washington e Nova York vai divulgar o trabalho da entidade.

Dorina publicou no gênero infantil a série “Receita saudável,” trilogia com os títulos: “Paçoca de Avô”, “Travessuras” e “A pipa que tomou banho”, além dos dois citados acima. Fez estudos de pós-graduação na área de inclusão, democracia participativa e movimentos sociais. Recebeu premiações como o prestigioso (ODM) Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da ONU.

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