quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Leia entrevista de Tiago Melo, diretor de "Azougue Nazaré", filme que retrata maracatu e preconceito, e que Cine Brasília programa no Carnaval

Quando samba, marchinhas e batuques que marcam o Carnaval estiverem soando nas diferentes latitudes da capital do país, dentro do Cine Brasília quem dará o tom é o maracatu rural de baque solto, estilo de música de matriz africana, ligado à Zona da Mata de Pernambuco, que o filme “Azougue Nazaré”, de Tiago Melo (produtor de “Aquarius”, “Boi Neon”, “Bacurau” e “Divino Amor”), traz de volta à telona.

'Azougue Nazaré' é o primeiro longa do realizador pernambucano Tiago Melo FOTO LEO SETTE/DIVULGAÇÃO

O filme pernambucano conta a história de acontecimentos misteriosos que assustam os moradores de Nazaré da Mata, município onde o filme foi rodado. A cidade, a 66 quilômetros de Recife, é conhecida por ser a capital do maracatu rural, além de ter a maior área de canaviais no Brasil. É nesse cenário que um pai de santo pratica ritual religioso com cinco caboclos, que ganham poderes, incorporam entidades e desaparecem.


“O Maracatu é uma arte de pura resistência, e eu quis colocar isso na tela, mostrar como a arte pode superar preconceitos, bloqueios, ameaças e intolerância”, diz o diretor no material de divulgação da película. Em foco a história de um ex-maracatuzeiro que se torna evangélico e passa a combater a dança porque diz ser inspirada pelo diabo. É o cinema de Pernambuco recorrendo de novo à alegoria (vide “Bacurau”) para fazer crítica a eventos contemporâneos.

O gerente do Cine Brasília, Rodrigo Torres, explica que “Azougue Nazaré” esteve apenas uma semana em cartaz na capital federal durante seu lançamento, em novembro do ano passado, e merecia uma janela maior de exibição. “Trata-se de um filme importante, que faturou 20 prêmios em 37 festivais ao redor do mundo”.

Confira a seguir entrevista feita com Tiago Melo:


Pode explicar o nome do filme?


Vem da bebida “azougue”, uma mistura de ervas, limão, cachaça e pólvora. Ela é enterrada por sete dias antes de ser consumida pelo caboclo de lança, figura do folclore do maracatu rural. Segundo a tradição, isso lhe dá proteção para brincar o carnaval. “Nazaré” se deve ao nome da cidade, onde o filme foi rodado.

Pernambuco volta a comparecer com uma alegoria (vide “Bacurau”) para fazer crítica da sociedade. Pode falar sobre este momento do cinema de seu estado?

A gente está num dos melhores momentos em termos de visibilidade, público e crítica. Isso se deve ao edital que existe há doze anos em Pernambuco, que nos permite exercitar, produzir e viabilizar em filmes as ideias que a gente tem. Essa safra é resultado desse processo. Um edital não garante filmes bons, mas possibilita a produção deles. A gente vê que o “Parasita”, vencedor do Oscar, também é fruto de uma política de incentivo ao cinema na Coreia do Sul.

Qual a importância de um filme que retrate a chamada cultura popular?


É um reconhecimento muito importante para o maracatu rural. Dedicamos todas as nossas premiações aos folgazões dessa dança, aos grandes artistas que são. O filme critica uma prática que é a de desvalorizar a cultura popular, que sempre recebe menos em termos de remuneração por show e custos logísticos que outras modalidades, como o forró por exemplo.

Por isso também o recurso de fazer o filme com praticantes da cultura popular e não com atores de fora?

Sim, a gente gravou com esses artistas, pela força e a potência da arte deles, o que ajuda a explicar o reconhecimento do filme pela crítica e o público.

Em horário nobre segue o vencedor do Oscar como melhor filme e melhor filme internacional, “Parasita”. “Inaudito” também continua, completando a grade.

Programação:


De 20 a 26/02 (como não haverá apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro durante o carnaval, o Cine Brasília terá sessões na segunda, 24 e terça-feira, 25).

Horários:
16h – Inaudito
18h – Azougue Nazaré
20h – Parasita

Serviço:
Entrada paga, R$ 12 (inteira). Bilheteria só aceita dinheiro, não cartões.
Endereço: Asa Sul, entrequadra 106/107. Telefone: (61) 3244-1660.

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