We can do it - superando o Complexo de Cinderela

Era uma vez, num reino tão, tão distante (ou na capital do Estado mesmo) uma moça chamada Cinderela (Maria, Joana, Ana, Valentina, Patrícia e etc.) vinda de uma família onde o pai possuía muito dinheiro (ou nem tanto assim, mas é a figura de liderança da família – marido, avô, irmão, tio) que acaba falecendo (abandonando o lar, se separando ou só cobrando que a mesma seja independente agora que cresceu) e deixa a filha (esposa, neta, irmã, sobrinha) aos cuidados da madrasta e irmãs (aqui pense na sociedade como um todo).   

Complexo de Cinderela / Imagem: Disney (Filme: Cinderela)

A jovem, se sentindo desamparada e despreparada (porque nunca ninguém disse ou ensinou que ela poderia ser independente) acaba sofrendo nas mãos da família (sociedade) e tendo a vida resumida aos cuidados domésticos (ou precisando procurar emprego, buscar uma qualificação acadêmica, etc.). 

Num belo dia ela descobre que haverá um baile (balada, barzinho, etc.) onde todas as jovens são convidadas para participar e o príncipe escolherá sua esposa. Todas comparecem e a pobre moça não foi autorizada a ir (falta grana, não tem muito tempo, está com problemas com a autoestima). Porém, de repente, aparece uma fada madrinha (ou aquela amiga que topa uma volta no shopping pra comprar uma roupa que vá chamar a atenção dos homens, independente de ser ou não confortável para você – vale sacrifícios – ou até mesmo empresta uma roupinha dela) que resolve todas as questões que a impediam de sair.  

A jovem comparece ao evento, consegue se divertir, ainda que de modo recatado (chamar atenção não faz parte das boas maneiras de uma dama ou talvez não esteja acostumada em sair) e vai embora. O príncipe durante a semana resolve ir atrás dela (pode ser pelas redes sociais também) até que a encontra e, ao se apaixonarem (ou não), casam e são felizes (?) para sempre. Assim ela está a salvo da vida de humilhações ou de esforço excessivo para manter o próprio lar (leia-se a própria vida e as contas em dias). 

Foi assim que Colette Dowling nos anos 80 e vivendo nos EUA, ao se deparar com a necessidade de cuidar de si mesma e dos filhos sozinha após uma separação conjugal, percebeu um fenômeno o qual denominou “Complexo de Cinderela” – a capacidade da mulher de rejeitar inconscientemente as responsabilidades e atribuir o êxito de sua vida a um acontecimento externo ou a alguém que aparecerá para livrá-la dessa necessidade de se manter dona da própria vida. 

Estranho em 2018 repetir essas palavras com tantos avanços e espaços conquistados pela mulher, principalmente no mundo profissional e acadêmico, sendo elas muitas vezes a provedora da casa, com ou sem marido. Acontece que não é difícil ouvir o discurso de mulheres que conseguiram conquistar diversas coisas, mas ainda não se sentiram realizadas por não possuírem maridos ou alguém que exerça essa função de segurança. O quanto se torna forte o sofrimento por ter “fracassado” nessa missão confiada a ela.  

E quem foi que disse que a sua felicidade, mulher, depende do outro? Estar bem consigo mesma, sentir-se realizada profissionalmente, fazer uma viagem dos sonhos e cuidar de si são tarefas que só competem a si mesmas, sem a necessidade de terceirizá-la. Como no conto, pode ser que a pessoa que exercia a função de segurança (pai) não esteja mais presente e a vida exija que coloquem em prática as múltiplas facetas de ser humano para garantir a própria sobrevivência. Não dá pra “se virar” por enquanto até alguém (príncipe) aparecer para salvá-la, porque esse alguém pode nem chegar ou simplesmente aparecer para encorajá-la a buscar os próprios ideais sem depender deste. A liberdade em poder ser o que quiser muitas vezes assusta aquelas que não foram ensinadas que a independência é um caminho possível, mas não deve, em hipótese alguma, ser um fator de paralisia ou de sensação de fracasso. 

Se, por um acaso, existe em sua vida a necessidade de estar com alguém a qualquer custo para sentir-se feliz/realizada, desconfie. Obviamente as relações exercem funções importantes na vida do ser humano, mas não podem ser estabelecidas baseadas na dependência. Não somos propriedade de ninguém além de nós mesmas. O caminho no qual percorremos é onde reside a beleza da vida. Escolha! Tome as próprias decisões. Decida se quer ou não casar-se com um parceiro ou parceira um dia, se deseja ou não ter filhos. Não é errado desejar ter a própria família, mas faça isso por você e assuma o papel de responsável dentro desta relação. Não sobrecarregue o outro em ter de dar conta das próprias questões e das tuas também. Saia, vá a bailes, divirta-se por, para e com você, não faça dessa busca o fim ultimo de tua vida. 

Encoraje nossas crianças a amarem-se. Por muitas vezes tentam nos encaixar em moldes de uma “mulher ideal”, então, rebele-se, acima de tudo, respeitando as próprias vontades. Aprenda a conversar sobre sexo com a mesma naturalidade que fala da necessidade de alimentar-se. Permita-se. Descubra-se. Desconstrua e reconstrua-se quantas vezes forem necessárias. Empodere-se. Ocupe, sonhe e vá onde quiser. Se nunca lhe disseram, escreva tua própria história, você pode muito mais que um conto de fadas e, acima de tudo, tenha orgulho de ser quem és, você lutou para isso. 

“É preciso ter coragem para ser mulher nesse mundo. Para viver como uma. Para escrever sobre elas” (Think Olga) 
Débora Porto

Formada em Psicologia e especialista em Saúde da Mulher. Doula e Educadora Perinatal. Empreendedora e psicoterapeuta de mulheres e famílias. email facebook instagram

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem