ESTREITANDO LAÇOS: A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS COMO FERRAMENTA TERAPÊUTICA

 “Era uma vez...” A partir dessa expressão tão conhecida, transformações surreais podem acontecer. Começo nosso bate papo de hoje com essa afirmação.


Você se recorda a última vez que ouviu uma bela e surpreendente história? Ei, psiu! Calma! Não precisa puxar tanto da memória, eu não me refiro exclusivamente a um conto de fadas, serve até a história motivacional que você ouviu na rádio hoje pela manhã a caminho do trabalho, ou mesmo a história trágica que você ouviu ontem no jornal. Está bem... Agora sim, consegue se recordar da história lúdica que mais te encantou na infância e adolescência ou quem sabe a que te emocionou contando pra os seus filhos. Lembrou? Consegue encontrar a semelhança entre todas elas? Absolutamente todas te despertam alguma emoção, é impossível se permanecer apático diante de uma história bem contada.


Contação de Histórias / Foto: Freepik

Com crianças e adolescentes, as histórias possuem o mesmo efeito; Uma boa história pode penetrar no que há de mais íntimo de um ouvinte e transformar por completo a sua realidade, pois provoca uma expansão de reflexão e chaves são viradas. Até mesmo adultos que, por muitas vezes se perderam de si, ao recordar de uma história volta-se para sua essência por meio da memória afetiva.


Lidar com as emoções de uma criança é desafiador, requer criatividade e sensibilidade. Para conectar-se com o íntimo de uma criança é necessário viajar em seu universo imaginário e buscar a linguagem que se encaixe com o seu, sendo assim, nada mais propício que a Contação de Histórias. Desse modo alcançamos os seus sentimentos de uma forma suave, não invasiva, sutil, rica e eficaz. Para a psico-pedagoga Walkiria Passos Garcia o “Era uma vez...” tem sido a senha para se entrar no maravilhoso mundo dos contos, mitos, lendas e fábulas. Basta que alguém diga essas três palavrinhas mágicas que o encanto acontece, e nós, adultos e crianças, como que hipnotizadas, esperamos que o contador prossiga com sua narrativa. Por que isso acontece? Porque ao ouvirmos uma história temos a possibilidade de refletir sobre a vida, sobre a morte, sobre nossas atitudes e escolhas [...]


A potencialidade terapêutica da arte em geral, e da palavra em particular, é atestada pela psicanálise, procedimento de investigação dos processos mentais proposto por Sigmund Freud em 1882. De acordo com o médico e escritor Moacyr Scliar em O olhar médico – crônicas de medicina e saúde (São Paulo: Ágora, 2005, p. 153): “a literatura serve para muitas coisas: divertir, informar, curar e minorar o sofrimento das pessoas”. No artigo “Literatura como tratamento”, ele cita a Associação Nacional para a Terapia pela Poesia, que desde 1981 existe nos Estados Unidos com a finalidade de usar a literatura para o desenvolvimento pessoal e o tratamento de situações patológicas: A associação edita o Journal for poetry therapy, realiza cursos e confere o título de especialista em biblioterapia. O biblioterapeuta trabalha em hospítais, instituições geriátricas, prisões. O método é relativamente simples: ele seleciona um poema, um conto, um trecho de romance que é lido para a pessoa. A resposta emocional desta é então discutida. O mecanismo básico que aí funciona é o da identificação, que começa muito cedo. Bruno Bettelheim mostrou que os contos de fadas exercem um papel importante na formação do psiquismo infantil, não apenas fornecendo modelos com os quais a criança pode se identificar, como também provendo uma válvula de escape para as tensões emocionais que, não raro, desencadeiam as reações psicossomáticas que geram as doenças.


A psicologia junguiana enxerga os contos de fadas, especificamente, como representações simbólicas viáveis para se solucionar problemas. Os adeptos da teoria de Jung creem que os contos de fada apresentam dilemas humanos e permitem a quem os ouve ou mesmo lê, através da identificação com os personagens dessas histórias, imaginar caminhos para diminuir/eliminar seus conflitos. Ouvir histórias, portanto, ajuda na confrontação de problemas e na busca por suas respectivas soluções, pois “a fantasia é o nosso combustível interno. Desde o nascimento, para que possamos sobreviver psiquicamente, criamos fantasias para dominar nossas angústias e realizar nossos desejos.” (Radino, 2003, p. 116). Ainda segundo essa teoria, os contos dão forma aos desejos e aguçam a imaginação infantil, favorecendo o processo de simbolização (cuja linguagem é a da emoção, da afetividade) necessário à inserção no mundo civilizado e cultural.


A contação de histórias pode ser executada por todos, seja professores, psicólogos infantis, odontopediatras, pais, assim sendo, qualquer adulto que tenha contato com crianças pode e deve contar histórias. E sempre podemos tornar a história ainda mais interessante e atrativa para os pequenos. Trago hoje algumas dicas simples que podem divertir e encantar ainda mais esse momento:


Conheça a história: Procure ler a história antes, para que assim esteja apto e preparado para esboçar as emoções e situações da melhor forma possível.


Entonação Vocal: Abuse dos tons e vozes para personagens diferentes. A mocinha pode ter uma voz mais fininha e delicada, já o dragão uma voz mais grossa a aterrorizante. Ensaia ai, vai!


Expressão Facial: Não tenha receio em arregalar os olhos no momento de suspense, ou quem sabe se encolher em um momento de timidez ou medo. Eu sei que existe um ator/atriz prontinho ai dentro de você!


Música: Você não leu errado, é isso mesmo, música! Analise se existe uma musica do repertório de vocês que se adeque a história, isso gera interação e intimidade.


Pergunte: Ao final da história, pergunte para o ouvinte o que mais chamou atenção dele, e o porquê. Ou quem sabe, o que ele aprendeu com essa história, se ele se recordou de algo que ele já vivenciou. Essa conversa com certeza deixará o momento mais gostoso e estreitará os laços.


Aqui em Brasília tem autores sensacionais que podem fazer parte de sua estante e te ajudar nesse momento com suas histórias fabulosas, Nyedja Gennari, Bito Teles, Sirlene Bastezini, Hozana Costa, Roberta Oliveira (eu mesma), dentre tantos outros talentosíssimos. Então eu te desafio a contar uma história pra uma criança essa semana, para experenciar isso. Permita-se viver essa aventura! Ah... e depois volta aqui para me contar como foi!

Roberta Oliveira

Escritora Infantil, Educadora Socioemocional, Coaching Kids, Contadora de Histórias, Animadora Infantil

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